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#TudãoDaLola

#TudãoDaLola – Ô lá em casa

23 de outubro de 2015 0

Do lado da porta da minha psicanalista tem uma obra. Na frente da porta da psicanalista, tem uma praça. Eu saio da análise na hora do almoço quando a praça é tomada por pedreiros com fome. Tento fugir,  passo olhando pra baixo pra não ver, mas esse tipo de coisa a gente não precisa ver, sente.

pedreiro

Vocês sabem do que eu estou falando. Aí aparece a máxima: se você passar por uma obra e não for cantada, quer dizer que a coisa está feia.

Então tento fazer a coisa ficar feia. Faço cara de esquilo, careta, estufo a barriga. Falo e gesticulo sozinha pra parecer que estou brigando com alguém invisível e parecer louca. Como eu queria passar por uma obra e não ser cantada.

Mas coitados dos pedreiros. Aposto que tem muito pedreiro que não mexe com as mulheres que passam. Aposto também que tem pedreiro que fica puto com os amigos pedreiros lambendo a bunda da mulher que acabou de passar com o olhar, não vou generalizar.

Mas já generalizando, homens. Dá pra sentir a distância quando aquela cantada nojenta vai acontecer. Não tem muito o que fazer. As vezes dá pra atravessar a rua pra evitar, mas às vezes é o cara do carro ao lado, no trânsito, te devorando e não tem pra onde fugir.

Delícia, gostosa ou aquele gemido malicioso.

O cara que acabou de mandar esses carinhos definitivamente não quer te fazer feliz, porque se quisesse, tentaria de outra forma. Ele sabe que não vai te ganhar assim, pelo contrário, quer única e exclusivamente te desvalorizar e diminuir. Mas pra que? Pra conseguir se sentir menos pior e menos miserável vendo que pode humilhar alguém que não pode se defender. É quase que bater no cara de óculos. Failed.

Uma vez estava andando num belo Domingo de sol à tarde e um cara dentro do carro do outro lado da avenida gritou: “ô bocetuda!”. Demorei pra entender que aquilo era pra mim e que ele estava constatando que minha boceta é grande. Fiquei com medo. Depois com raiva. Depois ódio. Aí o ódio virou pena, que virou amor. Por incrível que pareça, virou amor. Entendi que o tamanho do sofrimento dele deve ser gigantesco. Só posso ter amor por alguém assim e torço pra que algum dia ele consiga curar isso. Talvez até com uma bocetuda ao seu lado.

Mas nem sempre foi tudo só amor.

Teve uma época que estava tão revoltada que comecei a xingar. Respondia com um vai tomar no cú, seu nojento, escroto. Não funcionava. Tava batendo no cara de óculos. Não funciona.

Queria colocar veneno de rato no almoço dos pedreiros e matar todos de uma vez. Mas aí viriam outros pedreiros. E sabemos que a questão não é sobre os pedreiros. A questão sou eu incomodada e eles incomodados. Um incomodado com a presença do outro, cada um manifestando o incômodo da sua forma.

É sobre eu e eles, que precisamos parar de bater no cara de óculos e pedir o óculos emprestado. É sobre enxergar o outro. Voilá.

cantadas_de_pedreiro

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Alguém ou algo (vai saber) com sérias dificuldades para se descrever. Vamos tomar um café?

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