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#TudãoDaLola

#TudãoDaLola – Muy Loca

31 de julho de 2015 0

Visto meu pijama, sirvo néctar de uva (que diferente do suco, só tem 50% de fruta) numa taça para beber como se fosse vinho. Não quero álcool, mas quero ser fina. Sento na cadeira, lembro que preciso arrumar o forro que está rasgando e também lembro que sempre lembro disso, mas por algum motivo nunca tomo uma atitude. Em silêncio e com toda a tranquilidade do mundo, ligo meu computador, abro o Word e começo a escrever:

ESTOU FICANDO LOUCA.

ESTOU FICANDO LOUCA

ESTOU FICANDO LOUCA

ESTOU FICANDO

LOUCA

Não posso gritar, tem gente em casa e já sáo 22h da noite. Quero dançar, não danço. Quero mandar mensagem pra minha psicanalista, mas no fundo já sei o que ela vai dizer. Paola, quantos anos você tem? Mando mensagem pra alguns amigos, que não vão perguntar minha idade. Depois pro meu pai: “Oi, tudo bem? Estou surtando”.

Minha analista diz que tenho que aprender a usar as palavras sem exagerar. Quando fico triste, digo que estou deprimida. Quando digo que choro, choro baldes, cachoeiras, rios, mares. E quando estou mal, estou um turbilhão, estou louca, estou uma tragédia grega.

Quero largar tudo. Sonho em comprar agora uma passagem de ida para um lugar bem longe, de preferência do outro lado do mundo, fazer uma pequena mala e ir sem avisar ninguém. Ninguém mesmo. Aos poucos as pessoas iriam descobrir que eu sumi. As primeiras a descobrir seriam as minhas roomies, depois talvez os meus grupos do whatsapp – sorry, o celular não vai.

Conseguiria um emprego como garçonete numa lanchonete na Califórnia, depois aprenderia a fazer drinks na Holanda, plantaria tomates orgânicos na Nova Zelândia e ensinaria alguns termos em português enquanto aqueço minha mãos numa fogueira de uma vila mongol qualquer. Viajando de carona, escondida no porão de um navio, a pé, tanto faz.

Planejo tanto que já me vejo vivendo paixões internacionais efêmeras. Daquelas que acabam com o próximo destino. No amanhecer, deixo um bilhete de despedida no meu lugar da cama “baby, you´re amazing, mas o mundo é mais”. Num tom brega e charlatão mesmo, com meu perfume nos lençóis de um hotel de estrada.

Me vejo fumando cigarros, mesmo odiando o cheiro e tendo alergia, só pra fazer estilo. Bad girl, nômade e livre. Cada parada, um novo nome, uma nova história. Natasha, Pâmela, Sofia, Giuliana. Usando drogas que nunca usei e não tenho vontade de usar, só pra me perder e não lembrar o que aconteceu ontem.

Alguns detalhes seriam publicados no Instagram de vez em quando, usando um celular clandestino e descartável que depois do post seria jogado num rio, apenas pra dar pistas para aqueles que estão atrás de mim numa releitura do desenho “Onde está Carmen San Diego?”.

where-in-the-world-is-carmen-sandiego1

Pode ser até que um livro seja escrito. Best seller, contracultura, Into the Wild, tudo isso junto e misturado pra depois doar todo o lucro para uma instituição carente. Nessa altura do campeonato, me libertei de toda essa balela.

Fui longe, sem sair da minha cadeira rasgada. Tenho que trocar esse forro logo. Choro escondido, lágrimas de poodle, medrosas, tudo sempre em silêncio, pra não chamar a atenção.

Intensa e dramática, escrevo na esperança de que alguma coisa melhore. Funciona. Lembro que meu pai disse que meus textos são muito longos. Finjo não me importar, mas me importo. Lembro também que mandei uma mensagem pra ele dizendo que estava surtando e esqueci dele enquanto ia plantar tomates e curtir uma fogueira na Mongólia. Tá tudo bem pai, o surto passou e eu não sai da minha cadeira rasgada.

Por enquanto.

 

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Alguém ou algo (vai saber) com sérias dificuldades para se descrever. Vamos tomar um café?

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