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lola claure

#TudãoDaLola
#TudãoDaLola – Carta ao Estuprador
2 de junho de 2016 at 16:49 0

Querido estuprador,

Soa estranho te chamar assim. Estuprador. Essa palavra sai enviesada da minha boca. Carrega culpa e dúvida. Como assim estuprador? Você tem certeza do que está dizendo? Não, não tenho.

Então vamos começar de novo.

Querido,

Esse mês eu faço 28 anos. Passaram-se 13 anos desde aquela noite, e hoje me vi chorando por isso. Acho que você não faz idéia do que eu estou falando. “Que menina louca”. Eu não te culpo, também pensaria a mesma coisa.

Na verdade, durante esses 13 anos, foi exatamente isso que pensei. Que menina puta, que menina vadia, que menina inconsequente, que menina que não se dá valor. Essa menina não merece ser amada, não merece ser respeitada. Essa menina não merece nada de ninguém. Ela não presta mesmo.

Essa menina tinha 15 anos naquela noite, e você, pelos meus cálculos, 16. Ela tinha perdido a virgindade dois dias antes com um amigo seu, e acho que você sabia disso. Você ainda era virgem, e ela usou esse fato como escudo por muitos anos.“EU JÁ TIREI A VIRGINDADE DE UM MENINO”. Já escutei ela bradando isso diversas vezes por aí. Isso sempre a protegeu, a colocando num lugar superior, de mais forte. Ela nunca tinha olhado pra situação de outra forma.

Antes daquela noite, ela já tinha te visto num churrasco. Te achava muito bonito, sabia? Achava que você tinha um charme, alguma coisa diferente. Mas ela também gostava do seu amigo, com quem ela tinha perdido a virgindade dias antes. Mas isso não quer dizer que ela seja vadia não. Talvez tenham até te ensinado isso, e ela não te julga. Que mulher de muitos é puta (puta como algo negativo, desmerecedora de valor), que o certo deve ser uma pessoa para um coração. Ela te entende. Vivemos num modelo social que prega a monogamia, a constituição clássica de família. Mas vou te contar uma coisa – por mim e por ela – dentro de um coração podem caber dois, três ou quantos seres aquele coração amar. Isso não torna o coração melhor ou pior, mais ou menos puto; isso é apenas um coração cheio de amor. Você não concorda?

Ela podia não te conhecer ainda, mas no coração dela tinha espaço pra você desde o primeiro momento em que ela te viu. Intuição sempre foi uma característica dela. Então, quando aquele novo-amigo-em-comum disse que você iria à casa dele e a convidou, ela viu ali uma oportunidade de te conhecer.

Antes de ir, ela encontrou na portaria do prédio dela o vizinho traficante e fez a encomenda: um tubinho de clorofórmio com pedaços de bala halls de morango no fundo. Ela chegou antes, nervosa. Você chegou um pouco depois, e ela lembra de você entrando, tímido. Lembra de você e do amigo-em-comum saindo pra comprar bebidas. Lembra dela começando a cheirar o tubinho da bala de morango.

E depois ela tem flashes.

Flashes de vocês chegando com as bebidas.

Escuro.

Escuro

Escuro.

Um único flash de um pinto. Entrando e saindo.

E depois, escuro de novo.

E aí, não se desespere. As lembranças voltam, com ela de blusa e calcinha, correndo pelo corredor daquele apartamento, muito feliz. A calcinha tinha uma estampa com dois olhos. Olhos que viram muito mais do que ela. Porque ela não sabe como, não sabe de que forma, nem em qual posição. Não sabe se vocês usaram camisinha. Não sabe nem se vocês se beijaram. Mesmo que fosse só isso que ela queria.

Depois, o escuro foi iluminado com um e-mail na caixa de entrada, com várias fotos tiradas por você e pelo novo-amigo-em-comum naquela noite. Ela na sala, apagada no chão, com o peito pra fora. Foi há 13 anos atrás, mas ela ainda se lembra da roupa: blusa preta com top branco. Aquelas imagens a atormentaram até que ela conseguiu recuperar o cd com o amigo-em-comum e o quebrou. Mas o medo permaneceu latente. Será que você tinha as fotos guardadas em algum outro lugar? Talvez você ainda tenha numa pasta escondida naquele computador velho. Sim, 13 anos e ela ainda pensa nisso.

Mas não sempre. Agora, ela brinca com outros nomes, outros personagens e hoje conta histórias, que ironia, histórias de amor, ou da falta dele. Quando o amor acaba, sabe? Os terapeutas dizem que isso é um sintoma de quem já sofreu abuso. Ela não sabia que criar novas personalidades era uma forma de se proteger. Olha que bonito.

Estuprador querido,

Essa palavra agora sai menos torta da minha boca. Eu demorei 6 anos pra conseguir, de fato, me entregar pra um relacionamento com um homem. Eu namorei uma mulher antes disso porque não confiava no sexo oposto. Demorei muito pra conseguir gozar com um cara e me culpo desde então por aquela noite. Fui humilhada por ter feito sexo com dois amigos num espaço de poucos dias e tive certeza de que tudo aquilo era minha culpa, minha responsabilidade e de que eu merecia pagar o preço. Afinal, fui eu que levei a droga. Fui eu que cheirei a droga. Fui eu que apaguei, certo?

Errado. Abuso de vulnerável é estupro.

Bêbada, dormindo, inconsciente ou gritando. É estupro.

Eu precisei que 30 homens estuprassem uma menina de 16, que uma sociedade inteira duvidasse e julgasse a vítima, pra perceber que eu também já tinha sido estuprada.

Se eu pudesse voltar no tempo, se pudesse voltar naquela noite, eu te pediria pra que, quando você me visse apagada no chão, não tirasse fotos. Se eu pudesse rebobinar a vida, pediria que você me desse a mão e me tirasse, com cuidado, daquele chão, mas não que me levasse pro quarto e tirasse a minha roupa; apenas que me “colocasse” pra dormir.

Depois dessa noite, eu ainda alimentei uma paixão doentia por você. Era completamente fissurada em você e não entendia aquele processo. Até hoje eu ainda sonho com você. Freud deve explicar. Eu achava que era um encontro de almas, mas não tinha nada a ver com isso. Naquela noite você arrancou um pedaço da minha alma.

Descobri que o pior não é a dor da falta. O pior é a dor de não perceber que está faltando.

E que esse pedaço esteve esse tempo todo aí com você.

Querido,

Você fez isso e eu te perdoo. Você fez isso porque te ensinaram que esse é o lugar da mulher. Você não fez isso porque você é doente. Talvez você nunca nem mesmo aceite ter feito isso e continue com o mesmo pensamento: “Que mulher louca, eu só comi ela drogada há muito tempo atrás e agora ela vem dizer que é estupro”. Eu entendo se você cultivar esse pensamento. Eu mesma o cultivei até agora. Isso também te protege. Ninguém quer estar no lugar do abusador. Você é fruto da nossa cultura de estupro, machista, que alimenta a ideia de que mulher vulnerável deve ser comida, que você, como homem, deve tirar melhor proveito da situação. Que só assim você é macho de verdade.

Mas pra mim você teria sido muito mais macho se tivesse esperado o efeito da droga passar; se, juntos, tomássemos a decisão de fazer ou não o sexo. Você seria macho alfa, espada, cabra-macho, rei da floresta, ou qualquer outro termo, se essa experiência não fosse apenas um apagão traumático de dor na minha lembrança.

Infelizmente, naquela noite, você não foi homem. Então, se um dia você tiver a chance de fazer diferente, faça. Se um dia você tiver um filho, ensine-o a respeitar as mulheres e, principalmente, ensine que a gente nunca deve tomar pedaços do outro sem o seu consentimento consciente.

Isso é por todas nós.

Com respeito,

Eu e Ela.

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#TudãoDaLola
#TudãoDaLola – Vai dar um pouco de…
2 de maio de 2016 at 20:57 0
“Vai dar um pouco de cu”. Recebi essa mensagem de um leitor em resposta ao último texto que escrevi. Resolvi mandar print pra um grupo de amigos pelo Whatsapp pra saber a opinião deles, mas aí descobri que o aplicativo tinha acabado de ser bloqueado. Me disseram, baixa o Telegram. Não sou obrigada. Por isso tentei fazer uma ligação pra um dos amigos do grupo pra contar o que tinha acontecido e ter algum apoio. Mas aí descobri que os telefones também tinham sido bloqueados. Parece que uma quadrilha usou do instrumento para assaltar um banco e eles estavam investigando a real participação e culpa dele, o telefone, no caso. Tadinho, não teve nada com isso - me disseram - mas não esquenta, manda uma carta. Achei aquela história de carta muito recatada pro meu gosto, então resolvi escrever um email. Mensagem escrita, print anexado, clico enviar e surge um pop up: “Para liberar seu acesso a essa ferramenta, por favor, responda a pergunta - A família tradicional brasileira é constituída de: a)uma mulher, um homem, filhos b)pessoas que se amam" Cliquei na opção B e meu acesso foi bloqueado. A tela ficou vermelha, Bolsonaro apareceu rindo em chamas me chamando de pecadora e na sequência meu computador explodiu. Quem mandou ser a favor do aborto, agora tenta sinal de fumaça - juro que não entendi a relação de uma coisa com a outra - mas foi o que me disseram. Só que nunca me ensinaram a fazer uma fogueira. Então achei melhor não usar de nenhum meio de comunicação (quem precisa deles?), nem mexer com fogo, era muito perigoso. Foi aí que decidi fazer como nos velhos tempos e visitar a casa dos meus amigos pra contar sobre a mensagem que tinha recebido. Estava confiante de que tinha sido a decisão certa, mas no meio do caminho fui impedida por uma blitz policial. Aquela rua tinha sido testemunha de um crime violento contra a democracia e não queria dar depoimento sobre o caso. Pra piorar, a rua tinha cuspido num dos policiais. Enquanto a rua não falasse, ninguém tinha acesso a ela. Melhor passar longe, foi o que me disseram. Por isso decidi usar telepatia. Mas como nunca treinei muito bem a técnica ao invés de acessar a mente de um amigo, fiz contato com a Dilma. Ela tava boladona com essa história toda, mas não podia fazer nada - foi o que ela me disse - estava muito ocupada com o role do não vai ter golpe ao invés de governar o país. E ainda completou: investe na telepatia que é o melhor que você faz, pelo menos aqui eles não te grampeiam. Mas fazer telepatia dá fome, então desisti de fazer contato com qualquer um e fui ver o que tinha pra comer.  E aí foi a gota d´água. Eu tolero ficar sem whatsapp, tolero ter o acesso a internet controlado pela bancada religiosa, tolero perder o direito de ir e vir,mas não tolero só ter coxinha ou pão com mortadela pra comer. Onde é que ficam os vegetarianos nessa putaria? Não escrevi, não liguei, não visitei, não comi e nem dei um pouco de cu. Fimwhatsapp-bloqueado
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#TudãoDaLola
#TudãoDaLola – Desculpe se eu fui um babaca
21 de janeiro de 2016 at 21:10 1
Recebi uma mensagem inusitada: “Oi, lembra de mim?” A gente teve um relacionamento pocket, mas intenso, com aproveitamento integral e de quebra, um dia dos namorados fofinho de mãos dadas, assistindo filme. Claro que eu lembro de você. A gente não apaga as pessoas da cabeça da mesma forma que apagamos uma conversa do Whatsapp. Claro que eu lembro de você. Lembro de como você primeiro ficou distante, depois estranho e por último desapareceu, sem dizer nada. Claro que eu lembro de você. Entrei no seu Facebook pra mostrar uma foto sua pra minha prima e descobri que você tinha me deletado. Como esquecer? Nosso primeiro encontro foi incrível. Ele demorou dois dias pra me beijar e meus amigos tinham certeza que o menino era gay pela demora. Eu tinha certeza que ele só tinha um ritmo mais devagar e estava adorando aquele jeito old school de conhecer alguém. Foi tudo muito legal, até que ele sumiu. Para descobrir como fazer parte do clube do babaca, consultei um dos maiores babacas do mundo, assumido de carteirinha (e um ótimo amigo, por sinal):
  • Aja como se ela(e) fosse a pessoa mais especial do mundo ou o amor da sua vida.
  • Seja perfeito, amoroso, carinhoso e depois suma, com um silêncio ou uma desculpa qualquer.
  • Ficar ocupado para sempre também funciona.
Damn. Eles são bons no que fazem. E aí você se sente um(a) idiota por ter acreditado naquilo tudo. Não que aquilo tudo não tenha sido verdade. Foi verdadeiro pra você que se entregou e acredite, foi verdadeiro pro babaca também. Ele só não dá conta de sair desse ciclo vicioso pegou, iludiu, largou. É pior que droga. Quando o babaca some, termina do nada ou te corta de forma grosseira, ele está garantindo sair por cima, evitando ser rejeitado. Ele sente que ganhou aquele jogo (que jogo?).

Ha! Te rejeitei. Agora você não pode me rejeitar mais. Bilú-bilú-tetéia.

O babaca tem medo de se envolver, de se comprometer, de criar intimidade e correr riscos, mostrando todas aquelas partes que menos gostamos de nós mesmos. Aquele seu lado grosseiro que só a sua família conhece, a remela no olho e o bafo do amanhecer que não são nada românticos. O babaca é aquele covarde que se agarra ao mastro quando o navio está afundando só por medo de se jogar no oceano (vai que o oceano rejeita ele também). Fiquei bem mal quando esse babaca sumiu. Me senti um lixo e me culpei, achando razões em mim pra ter sido descartada. Mas depois passou. Se você por algum motivo está sofrendo por um babaca alheio, permita-se. Sinta a falta, viva o vazio. Xingue o babaca (é ótimo!). Sofra por você e por ele. O babaca só abandona porque ele foi abandonado há muito tempo. Aí ele sai por aí, atrás de alguém que preencha esse buraco que o assola. Quando a sua dor passar, o babaca vai estar lá, como uma criança que perdeu a mãe no shopping, buscando alguém que supra o que ele não encontra dentro dele: amor. Mas não se engane, todos somos babacas. Em maior ou menor nível, queremos ganhar o jogo (que jogo?), sair por cima e nos sentirmos melhores por isso. Já não respondi aquela pessoa que não estava tão afim, já mostrei pros meus amigos como fulaninho queria tanto e eu não estava nem aí. Me senti melhor por isso, fodona, uma grande babaca. A diferença é o quanto você está apegada(o) a esse jogo (?!?!). Alguns já desistem da prática de primeira, outros demoram um pouco mais. Os viciados ficam lá, batendo cabeça. Descobri que o meu babaca sumiu porque voltou com a ex namorada e não sabia como dizer isso. Meses depois, ele veio se desculpar e hoje eu dou aula de yoga pra ele. Salve um babaca você também. > Já salvou um babaca? Conta pra gente a sua história com a #salveumbabaca     beach-yoga  
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#TudãoDaLola
#TudãoDaLola – Um cafezinho vibrante
7 de janeiro de 2016 at 18:20 5
Começo de ano, começo de mês, começo de semana, começo de dia. Isso me alivia e me desespera. Tudo de novo. Infecção, não. Infestação, também não. Fugiu a palavra. Como é que chama quando você toma muito café e passa mal? Eu estou com “lálálá” de caféina. Poderia ser convulsão de cafeína, mas não é. Pior do que estar assim, é tentar lembrar uma palavra pra começar seu texto com a mente acelerada e ela estar na ponta da língua mas não sair. Acho que começa com I de índio, indiana ou de impressionante, por que eu bebi tanto café? Pra acordar. Acordei com sono. Nunca gostei de café, mas comecei a tomar nessas situações que precisava viver a vida, ser produtiva, trabalhar quando na verdade queria dormir. Da mesma forma que aprendi a tomar cerveja. Tinha 15 anos e os churrascos só tinham cerveja e linguiça - era o que dava pra bancar com o orçamento da mesada. Tomava tapando o nariz num gole só, até que um dia virou bom. O café continua ruim. Dormi mal, mas o mundo não vai esperar eu dormir mais. Talvez seja só a minha cabeça que argumente isso. O mundo somos quem? Os outros? Os outros não estão nem aí se eu dormir mais. Cada um está muito preocupado com o seu próprio umbigo ou com o seu próprio café. Mas nós dizemos que o mundo não espera, como se o mundo fosse uma pessoa irritada batendo na porta, dizendo que você está atrasado. Por que não acordou mais cedo? Por que não trabalhou mais? Vai trabalhar vagabundo! Enquanto você tá aí de bobeira, lendo esse texto, tem outra pessoa passando na sua frente na corrida do dinheiro-fama-sucesso-carreira- felicidade. Um ano terminou e outro começa. Então corre, mesmo que seja como uma barata tonta, de um lado pro outro, enquanto o mundo (olha aí ele de novo) gira, nesse universo infinito que a gente não sabe porque está, nem pra que está. Dormi mal porque acordei muito durante a noite. Em algumas acordadas percebi que estava babando litros no travesseiro. Toda a minha produção de saliva escorria boca afora. Levantei 30 minutos depois do planejado, tomei o 1o café e saí andando rápido, mesmo não estando atrasada. Tá com pressa do que? Queria ter ido malhar antes da reunião, não deu. Queria ter escrito antes da reunião, não deu também. Queria ter feito tanta coisa que não fiz nada. Fiquei ali, presa no campo mental. No caminho, em alguns bares e padocas, cervejas e cafés rolando à solta, enquanto na sua casa, você estava: a)babando as Cataras do Iguaçu b)tomando seu cafezinho c)sonhando com a cerveja gelada que você poderia estar tomando na praia nesse calor enquanto se arruma pro trabalho d) nenhuma das opções acima, quem essa menina pensa que é pra saber o que eu estava fazendo Somos todos muito parecidos, apesar de termos certeza de que somos diferentes. Cheguei meia hora antes do horário, mandei outro café pra dentro enquanto esperava. Seu Nespresso é curto ou longo? Podia estar recebendo pra falar NESPRESSO, mas não estou. Achei ruim e não fiz cara feia. Na reunião, outro café. Você prefere pleno ou vibrante? A Nespresso ficou complexa. Fiquei em dúvida se eu estava plena ou vibrante. Tomei o vibrante, pensando no pleno. Mas não queria nem um nem o outro, não pensei, só tomei. No meio da caneca o corpo aponta os primeiros sinais de exagero com enjôo e taquicardia. Queria ser consumidora de café assim como queria ser consumidora do sexo desapegado. Pega, toma, larga e vai embora. Mas não sou nenhum dos dois. Romântica do café e do amor. Sensível a cafeína, câncer em câncer. Pegajosa como a cachoeira de baba no meu travesseiro da noite anterior. E no final do dia, tudo isso é inútil porque a Coréia do Norte vai explodir a bomba e vai tudo pros ares: a palavra que eu não me lembro pra começar o texto, a cerveja que eu aprendi a gostar aos 15 anos, o trabalho que eu corria atrás sem saber porque, o tempo que passa cada vez mais rápido e o café, que me deixou… INTOXICADA. coreiadonorte   Aceita um cafezinho? Yes, please.
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#TudãoDaLola
#TudãoDaLola – Tudo Bem? Not
26 de novembro de 2015 at 23:30 0
Tudo bem?Não está tudo bem. Mas a gente diz que sim, obrigada por perguntar. Essa noite eu sonhei com meu ex. Sonhei que a gente voltava a ficar juntos. Acordei mexida. Queria mandar uma mensagem pra ele mas não podia. Não pode, porque mandar uma mensagem pro seu ex é manifestar fraqueza e a gente aprende que ser fraco é ruim. Bom é ser da turma dos fortes, bombar na academia, fazer omelete de claras e dar surra nos fracos. Andando na rua, você encontra aquela pessoa que tem no Facebook, mas é que agora você está muito corrido pra parar a sua vida pra ter uma conversa de verdade (em tempos de whatsapp, me manda um áudio). Pra escapar do encontro, você primeiro olha pro lado oposto, fazendo a(o) distraída(o). Pra parecer natural, subitamente a vitrine ao seu lado ficou TÃO INTERESSANTE e ah! o celular deixa eu ver aqui o meu celular, que horas são? será que eu recebi uma nova mensagem muito importante? um novo like? Ó grande celular, salvador dos encontros não desejáveis. Mas agora já era, vocês tentaram tanto não se ver, que se viram. Oi!Tudo bem? Tudo querida(o) e você? - Aqui não sabemos identificar quem está forçando mais um sorriso. Tudo também. mas e aí, como estão as coisas (?!) tudo bem? - Vocês começam a se repetir no desespero. Tudo, tudo sim. E você? Tudo bem também? Tudo... Ah, que bom... - As coisas começam a ficar tensas. Bom, aham.... É, muito bom. - Repetitivos. Ah, legal. Legal né. - Ô... É… (silêncio constrangedor) Bom te ver. - Finalmente alguém tomou coragem! Também. Ufa! E aí cada um volta a correr atrás da sua vida corrida e muito importante. Um momento que poderia ter sido resolvido se nos permitíssemos ser mais fracos e honestos com um "oi, vamos continuar sendo só amigos no Facebook, ok? Não quero saber se tá tudo bem com você, minha vida é muito importante e corrida". Mas não. Nós somos fortes. Nós não mandamos mensagens para ex namorados e nós perdemos nosso tão precioso tempo perguntando se está tudo bem para pessoas que não queremos saber se está tudo bem. Somos fodas. Sorrimos por fora enquanto desabamos por dentro. Yay! Fui lembrando do sonho com o ex em partes, enquanto comia banana com chia e tomava café. Numa mordida, bum, apareceu um trechinho. Entre uma mastigada e um gole de café, outro trecho. Daqueles sonhos nebulosos que vão te dando pequenas dicas e que você sabe que está ali inteiro, pronto pra revelar tudo, mas parece uma criança sapeca brincando de esconde-esconde enquanto te fode todo pra revelar o resto. Eu estou ótima! Me acabei de correr pra ver se passava, não passou. Suada e cheia de areia, quase chorei com meu treinador. Fiz mil abdominais. Continuou lá. Não está tudo bem. Esses dias eu e o ex nos encontramos na rua. Ele dava um passo pra frente e eu dava um passo pra trás, completamente desconfortável. Não somos amigos no Facebook e não trocamos áudios pelo whatsapp. Pra onde será que foi aquela atmosfera relaxada da intimidade de 4 anos de relacionamento? Se mudou pra outro país, entrou no modo avião e não me avisou. Hello stranger, tudo bem? Perguntei sobre tudo o que eu não queria saber.  Como está a faculdade? Não quero saber. Está fazendo psicanálise? Não quero saber. E a reforma do seu quarto, terminou? Foda-se. Cheguei em casa me gabando: encontrei meu ex e tá tudo bem. Fiz a bombada da academia, comendo batata doce com pasta de amendoim de pré treino. Mas a fraqueza também é uma força. A vulnerabilidade chegou como um furacão, descarrilhou meu trem e não deixou nada bem. Enquanto perguntava se estava tudo bem e todas aquelas perguntas superficiais que eu de fato não queria saber, eu tinha tantas outras coisas pra falar. E é isso que fazemos na vida. Queremos dizer várias outras coisas, mas dizemos que está tudo bem. Porque é mais fácil fingir que somos fortes.  Mesmo que depois a gente pague a conta. Mandei uma mensagem pro meu ex e disse tudo aqui o que realmente tinha vontade de dizer. Fui fraca, vulnerável, idiota, o que você preferir. Mas aí ficou tudo bem.
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#TudãoDaLola
#TudãoDaLola – Gorila do amor
13 de novembro de 2015 at 23:38 0
A Disney faz muito bem o papel de alimentar o conto de fadas no nosso imaginário do amor. A gente espera o homem ideal, o beijo que encaixa, o sexo de cinema e aí vem a vida,  joga uma bomba de merda no seu castelo encantado e faz muito bem o papel de te dar o choque de realidade necessário enquanto te diz lide com isso bitch, ninguém disse que seria fácil. Minhas primeiras experiências amorosas foram como quando aquela criança toda empolgada abria a porta dos desesperados do Sérgio Mallandro na expectativa de ganhar a bicicleta, mas aparecia o gorila – UM TERROR. porta O primeiro beijo aconteceu porque tinha acabado de me mudar de cidade e queria me enturmar com as minhas novas – e únicas amigas – que já tinham dado os seus respectivos first kiss de língua. Pra não ficar de fora da turma, menti que já tinha beijado 3 (ousada) na minha outra cidade, mas na verdade estava muito ocupada subindo árvores, comendo goiaba com bicho e brincando de guerra de cocô de vaca na fazenda (uiiii, que porca ela). Para resolver a situação beijei logo um loirinho que morava no prédio da minha nova – e quase única – amiga. Detalhe: ele já tinha beijado ela também. Na época não tinha whatsapp, então a gente gastava o tempo vivendo, beijando, essas coisas que não fazemos mais porque estamos muito entretidos com os nossos grupos e áudios. Foi tudo planejado. Treinei algumas vezes no espelho da penteadeira da minha mãe antes. Tentava limpar o melado da baba pra não deixar rastros. Experimentei a técnica do gelo e da laranja também. Todas devidamente pesquisadas no “Cadê?” ou na revista teen mais próxima. Rolou no play do prédio daquela amiga. Ele me pediu em namoro no mesmo dia e eu aceitei. Foram 14 dias de namoro que terminou porque o loirinho-malandro beijou uma outra – e quase única – amiga, pedindo ela em namoro já na sequência. Bobo nada. Terminamos por telefone. Fingi que não me importava por estar sendo trocada, da mesma forma que a gente costuma fingir as coisas quando quer se proteger: botando uma muralha da China entre a gente e o mundo e gritando lá do alto tá tudo bem! Mas lembro até hoje dessa ligação. Ali se formava a minha primeira frustração amorosa. Pausa dramática. O namoro deles não durou. Minha amizade com elas também não. Ainda bem, porque amiga que é amiga faz guerra de cocô de vaca comigo (só tem que ser seco. uiiii). Mas a ferida a gente guarda e carrega, como aquele pacote de chiclets esquecido dentro da bolsa.

A primeira vez foi com um cara que já tinha namorado uma ex amiga.

Fui uma vaca, mas estava apaixonada. Ele também foi uma vaca, mas só queria me comer. Eu queria um amor, ele uma gozada. Vai controlar os hormônios de uma adolescente com ovários policísticos e de um adolescente que não pode ver um buraco no chão e já fica "mexido"? Foda. Sofri em todas essas vezes e outras incontáveis. Por me machucar, machucar o outro ou por ser machucada. Aí percebi que poderia continuar repetindo os padrões da frustração ou poderia criar coragem para abrir a bolsa e mexer naquele chiclets esquecido lá no fundo.  O problema é que ele já tinha derretido e melado tudo, então ou eu jogava fora a bolsa ou eu limpava. Como no caso a bolsa sou eu e eu não tem troca, aqui estou, desgrudando pedaços de chiclets até hoje. Assumindo a minha responsabilidade quanto a isso. Todo dia um novo pedaço. Todo dia, tudo de novo, mas sempre diferente. HOJE, como eu posso fazer diferente? Aí a gente abre a porta e pode não ter a bicicleta, mas o Gorila tá ali, sorrindo pra você. bebes-da-parmalat-gorila
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#TudãoDaLola
#TudãoDaLola – Dizem que faz bem
5 de novembro de 2015 at 18:22 0
Acordo de manhã e tomo um copo d´água com limão pra limpar o organismo. Dizem que faz bem. Se tomar com água quente diz a lenda que ajuda a emagrecer. Mas tenho preguiça de esquentar a água todo dia. Se fosse esquentar seria no microondas, mas aí dizem que o microondas mata toda a vida dos alimentos, inclusive da água. Vi uma menina que regou uma plantinha com água esquentada no microondas (ela esperava a água esfriar antes de regar) e a plantinha morreu em 15 dias. Não quero morrer em 15. Fico com a água natural, por mais que na hora do almoço eu ignore a informação da água assassina e esquente meu prato feliz da vida com a praticidade da vida moderna. Água com limão em jejum é daquelas coisas que tem uma lista gigantesca de benefícios mas quando te perguntam você não sabe dizer nenhum. Tive uma sogra que toda vez que me via bebendo de manhã na casa dela dava uma chiada aguda básica. “Isso é muito ácido. Vai acabar com seu estômago” - Ela se contorcia dentro da sua camisola de florzinha morrendo de medo daquela namorada artista, vegetariana e tatuada levar o seu doce filho pro caminho sem volta da água com limão. Dizem que é do demo.

limao

Eu sorria e dizia que a minha nutri e a ayurveda deveriam saber do que estavam falando. Ou não, vai saber se daqui a mil anos descobrem que a ayuverda e a minha nutri estavam ambas erradas. Não fizeram isso com o ovo? Antes ele era o vilão, agora é o mocinho. Mas enquanto isso não acontece, vou de água com limão todo dia e depois um suco verde pra desintoxicar. Dizem que é bom também. Bato tudo no liquidificador e pronto. Tem quem gosta de coar e tem quem não gosta. Assim como tem quem precisa fazer cocô e tem quem não precisa. Quer dizer, todo mundo precisa fazer cocô, mas tem quem é cu de pato e tem quem não é (e como muitos amigos meus são, eu quero aproveitar o momento pra deixar registrado que eu odeio todos vocês e o metabolismo incrível que vocês têm). Se você é da turma do intestino escorrega, coe e tome. Jogue as fibras solúveis fora, você não precisa delas, é o que dizem por aí. Seu intestino já é um verdadeiro toboágua de parque aquático em dia de sol no feriado.

toboagua

Agora se o seu intestino precisa de um incentivo a mais, as fibras solúveis do suco verde são o empurrão que estava faltando. Tape o nariz encare o patê de grama (venhamos e convenhamos, é uma delícia, mas é um patê de grama) e persista que com o tempo você aprende a gostar ou a suportar. Dizem que uma hora vai. Sou de fases. Às vezes fico com as fibras solúveis, às vezes mando elas pro ralo e às vezes faço a revoltada, não tomo água com limão ou suco verde nenhum e deixo as folhas de couve ficarem amarelas na geladeira porque estou muito ocupada com um sorvete delicioso enquanto me pergunto: "quem precisa de sexo com isso?”. Faz bem também. Dizem.
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#TudãoDaLola
#TudãoDaLola – Ô lá em casa
23 de outubro de 2015 at 03:06 0
Do lado da porta da minha psicanalista tem uma obra. Na frente da porta da psicanalista, tem uma praça. Eu saio da análise na hora do almoço quando a praça é tomada por pedreiros com fome. Tento fugir,  passo olhando pra baixo pra não ver, mas esse tipo de coisa a gente não precisa ver, sente.

pedreiro

Vocês sabem do que eu estou falando. Aí aparece a máxima: se você passar por uma obra e não for cantada, quer dizer que a coisa está feia. Então tento fazer a coisa ficar feia. Faço cara de esquilo, careta, estufo a barriga. Falo e gesticulo sozinha pra parecer que estou brigando com alguém invisível e parecer louca. Como eu queria passar por uma obra e não ser cantada. Mas coitados dos pedreiros. Aposto que tem muito pedreiro que não mexe com as mulheres que passam. Aposto também que tem pedreiro que fica puto com os amigos pedreiros lambendo a bunda da mulher que acabou de passar com o olhar, não vou generalizar. Mas já generalizando, homens. Dá pra sentir a distância quando aquela cantada nojenta vai acontecer. Não tem muito o que fazer. As vezes dá pra atravessar a rua pra evitar, mas às vezes é o cara do carro ao lado, no trânsito, te devorando e não tem pra onde fugir.

Delícia, gostosa ou aquele gemido malicioso.

O cara que acabou de mandar esses carinhos definitivamente não quer te fazer feliz, porque se quisesse, tentaria de outra forma. Ele sabe que não vai te ganhar assim, pelo contrário, quer única e exclusivamente te desvalorizar e diminuir. Mas pra que? Pra conseguir se sentir menos pior e menos miserável vendo que pode humilhar alguém que não pode se defender. É quase que bater no cara de óculos. Failed. Uma vez estava andando num belo Domingo de sol à tarde e um cara dentro do carro do outro lado da avenida gritou: “ô bocetuda!”. Demorei pra entender que aquilo era pra mim e que ele estava constatando que minha boceta é grande. Fiquei com medo. Depois com raiva. Depois ódio. Aí o ódio virou pena, que virou amor. Por incrível que pareça, virou amor. Entendi que o tamanho do sofrimento dele deve ser gigantesco. Só posso ter amor por alguém assim e torço pra que algum dia ele consiga curar isso. Talvez até com uma bocetuda ao seu lado.

Mas nem sempre foi tudo só amor.

Teve uma época que estava tão revoltada que comecei a xingar. Respondia com um vai tomar no cú, seu nojento, escroto. Não funcionava. Tava batendo no cara de óculos. Não funciona. Queria colocar veneno de rato no almoço dos pedreiros e matar todos de uma vez. Mas aí viriam outros pedreiros. E sabemos que a questão não é sobre os pedreiros. A questão sou eu incomodada e eles incomodados. Um incomodado com a presença do outro, cada um manifestando o incômodo da sua forma. É sobre eu e eles, que precisamos parar de bater no cara de óculos e pedir o óculos emprestado. É sobre enxergar o outro. Voilá. cantadas_de_pedreiro
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#TudãoDaLola
#TudãoDaLola – Não leia esse texto
16 de outubro de 2015 at 04:17 0
Ler é estúpido. Estou desesperada. Tenho 6 livros na cabeceira da minha cama.Todos comecei a ler e não terminei. Olho pra eles e não quero voltar a ler nenhum. Nota mental: comprar um livro novo. Preciso? Livros são sempre bem vindos. Mas não, eu não preciso. Quer dizer, todos os livros que já comprei eu precisava MUITO na hora que estava na livraria e decidi levar. Nota mental daquele momento mágico na livraria: como pude viver sem ter lido esse livro até hoje? Compro. No máximo 3, mas às vezes 4.    Tenho dois tios que não lêem nada. Nem jornal, nem revista, nem Facebook. São riquíssimos, mas não lêem. Não sei porque fiz essa comparação. Ah sei, mas isso é tema pra um próximo #tudão. Da onde veio essa história de que ler é importante?  Se você é da turma dos meus tios que acha que ler é estúpido, você está certo. Pare de ler esse texto e vá fritar batata frita. batata Chego em casa e começo a ler. Descubro que aquele livro descoberta do ano que eu acabo de comprar não era tão necessário assim. Insisto, não rola, paro, vou fritar batata frita. Pronto, mais um livro sem fim, órfão de mim. Tenho um amigo que termina de ler todos os livros que ele começa. Na boa, pago um pau pra ele. Não no sentido literal, até porque tenho certeza que ele não está disponível pra que eu pague esse pau (a fruta dele é outra), mas no sentido literário sim. Ha! Olha ela, brincando com as palavras literal e literário. Queria ser que nem ele. Ele também brinca com as palavras, mas não gosta de gente que usa a palavra literal(mente) do modo errado. Eu posso não terminar de ler livros que começo, mas uso a palavra literal(mente) do jeito que eu quiser.

E eu também roubo, mas não no sentido literal. Leia e descubra.

Nunca roubei livros, nem nunca roubei um livreiro. Só roubei na Disney, uma experiência traumática que quase acabou com a minha viagem de 15 anos. Quando leio, eu roubo é de mim mesma. Pulo páginas do livro que estou lendo, às vezes capítulos. Esse não, esse não, hummm, chato, esse não também. Posso viver sem saber disso e ah.. olha só, acabou o livro. Acabei de ler o livro. Ladra. Minha mãe diz que eu leio muito. Ela fala como se o tanto que alguém lê fosse diretamente proporcional ao quão genial a pessoa é. É? Tudo que eu leio eu esqueço. É? É, esqueço. Os livros que terminei de ler não me lembro mais do começo, do meio e vou me esquecer em breve do fim.

Os índios são como os meus tios, não lêem.

Não to falando do índio de bermuda, internet, que pega gripe e toma Fanta laranja. Esses já estão fritando batatas. Minha cabeça está a mil. Dizem que os livros vão acabar com a revolução dos eletrônicos. Tem outros que dizem que vai ser que nem o rádio, não vai acabar nunca, mesmo com a tomada das TVs. Tem a galera que ama o cheiro do papel e a sensação de abrir um livro, mas um dia essa galera vai morrer. Meus tios que não lêem não estão nem aí. Estão muito felizes com seus Iphones de última geração e com a nova versão do Candy Crush. Já tomei um litro de chá de camomila frio e não funcionou. Minha mãe está do meu lado, querendo saber sobre o que vou escrever hoje. Sobre muitas coisas, mãe. Escrevo sobre os livros - órfãos da minha cabeceira. Não sei porque leio. Não sei porque você me lê. Minha mãe começa a meditar, fofa. Eu bombo de escrever sobre não ler. Olho pro lado e a cabeceira está me encarando... Num ataque fatal, ela lança os 6 livros - órfãos na minha cara. Eles estão afiados como lâminas e cortam meu rosto. Começo a sangrar, entro em desespero. Minha mãe medita serenamente.

Pulo em cima da cabeceira e começo a estrangula-la.

Os livros órfãos voam em rasantes tentando me cortar mais. Grito: “Ler é estúpido! Meus tios ricos não lêem!”. Descubro tarde demais que a cabeceira é faixa preta no jiu-jitsu. Ela me ataca em 3 golpes precisos e antes que eu possa revidar, me finaliza num mata leão. Não satisfeita, enfia os 6 livros - órfãos na minha boca e me deixa morrer ali, sufocada de mim. Minha mãe sai de meditação e fica impressionada com o tanto que já escrevi. Tá rendendo heim filha? Tá sim, mãe. Tá com fome? Ela traz uma pera. Suculenta e literal. Eu como, tensa, encarando a cabeceira que não me matou dessa vez por piedade.“Na próxima você não me escapa”- disse a cabeceira num ranger de dentes. Tudo o que eu escrevo é estúpido. Deveria fritar batatas e ler menos. Um amigo diria, literalmente.  
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#TudãoDaLola
#TudãoDaLola – Vamos falar de boceta?
25 de setembro de 2015 at 02:50 0
Vamos falar de boceta? Tem gente que acha agressivo esse nome. Então vamos falar de vagina? Esquisito esse. Científico demais.

Serve falar de perereca?

Xoxota? Tem algum nome para o órgão sexual ou para aquela parte do corpo que você pode achar guardado entre as pernas de toda mulher que seja fofo ou agradável? Por que temos tanto medo de falar de boceta? Tabu. Lacan confirma "o sexo da mulher é impossível de representar, dizer e nomear”. Esses dias estava lendo um texto sobre o quadro A Origem do Mundo. Para quem não conhecia, agora conhece: a-origem-do-mundo

Bu!

A autora do texto contava sobre o surto que a empregada dela teve depois que viu o quadro pendurado na parede. Segundo ela, a empregada Emília gritava: "É o fim do mundo! Que horror! Coisa do demônio!"  Fico me perguntando se a Emília tinha ideia que a coisa do demônio habita o meio das suas pernas. Infelizmente a resposta talvez seja não. Uma Emília que cresceu num ambiente onde levaria um tapa do pai na boca - ou pior, da mãe - se falasse em casa a palavra boceta. "Deus tá vendo minha filha". E provavelmente, ela e muitas outras mulheres acham que a coisa do demo que ali habita serve só pra fazer xixi e para ser metida (nesse sentido que você pensou mesmo). "Olha que Deus tá vendo". Há alguns anos atrás criei um grupo artístico, o Coletivo Mastruço, para pesquisar temas sobre a intimidade. Nossa primeira peça aconteceu dentro de um banheiro feminino e a cena final era uma conversa entre bocetas. Nos ensaios descobrimos no nosso corpo como seria se as nossas bocetas falassem. Depois de tantos anos esquecida, a minha querida tinha muito o que falar, com razão. Foi a primeira vez que de fato enxerguei minha buça (como carinhosamente a chamo hoje em dia). Um dia peguei um espelho e fiquei ali olhando. Um novo mundo que se abria. Meu corpo lindo e amado. Melhor que qualquer aula de ciências. Um acontecimento cheio de amor e poesia pela minha querida bu. Antes eu achava que era buceta. Depois desse trabalho, descobri que é bo.

Hoje falo boceta como falo bom dia.

Cotidiano. Converso sobre boceta assim como converso sobre a previsão do tempo. O peso e o preconceito está em você aí do outro lado me julgando por falar tantas vezes boceta num só texto. “Que pervertida essa menina. Não se dá o valor”. Boceta, boceta, boceta. O texto é meu e eu falo o quanto eu quiser. Está na hora de tirarmos as bocetas dos armários, limpar a poeira e botar elas para voar. Emílias, descubram suas bocetas esquecidas. Deixem que elas falem. Homens, incentivem suas Emílias a falarem sobre bocetas assim como vocês falam de pintos. Tenho certeza que você vai descobrir uma mulher muito mais empoderada e interessante ao seu lado. Autoconhecimento, babe. E depois dessa conversa de bocetas, aproveito pra avisar que o meu coletivo acaba de lançar um novo projeto. Uma festa que é uma peça e você pode participar dessa viagem sendo nosso apoiador. Nós (eu, minha bu e todas as outras bus do mundo) ficaremos muito felizes com o seu apoio. Clica aqui e saiba mais: zíper A FESTA  
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