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a vítima é sempre vítima

#TudãoDaLola
#TudãoDaLola – Carta ao Estuprador
2 de junho de 2016 at 16:49 0

Querido estuprador,

Soa estranho te chamar assim. Estuprador. Essa palavra sai enviesada da minha boca. Carrega culpa e dúvida. Como assim estuprador? Você tem certeza do que está dizendo? Não, não tenho.

Então vamos começar de novo.

Querido,

Esse mês eu faço 28 anos. Passaram-se 13 anos desde aquela noite, e hoje me vi chorando por isso. Acho que você não faz idéia do que eu estou falando. “Que menina louca”. Eu não te culpo, também pensaria a mesma coisa.

Na verdade, durante esses 13 anos, foi exatamente isso que pensei. Que menina puta, que menina vadia, que menina inconsequente, que menina que não se dá valor. Essa menina não merece ser amada, não merece ser respeitada. Essa menina não merece nada de ninguém. Ela não presta mesmo.

Essa menina tinha 15 anos naquela noite, e você, pelos meus cálculos, 16. Ela tinha perdido a virgindade dois dias antes com um amigo seu, e acho que você sabia disso. Você ainda era virgem, e ela usou esse fato como escudo por muitos anos.“EU JÁ TIREI A VIRGINDADE DE UM MENINO”. Já escutei ela bradando isso diversas vezes por aí. Isso sempre a protegeu, a colocando num lugar superior, de mais forte. Ela nunca tinha olhado pra situação de outra forma.

Antes daquela noite, ela já tinha te visto num churrasco. Te achava muito bonito, sabia? Achava que você tinha um charme, alguma coisa diferente. Mas ela também gostava do seu amigo, com quem ela tinha perdido a virgindade dias antes. Mas isso não quer dizer que ela seja vadia não. Talvez tenham até te ensinado isso, e ela não te julga. Que mulher de muitos é puta (puta como algo negativo, desmerecedora de valor), que o certo deve ser uma pessoa para um coração. Ela te entende. Vivemos num modelo social que prega a monogamia, a constituição clássica de família. Mas vou te contar uma coisa – por mim e por ela – dentro de um coração podem caber dois, três ou quantos seres aquele coração amar. Isso não torna o coração melhor ou pior, mais ou menos puto; isso é apenas um coração cheio de amor. Você não concorda?

Ela podia não te conhecer ainda, mas no coração dela tinha espaço pra você desde o primeiro momento em que ela te viu. Intuição sempre foi uma característica dela. Então, quando aquele novo-amigo-em-comum disse que você iria à casa dele e a convidou, ela viu ali uma oportunidade de te conhecer.

Antes de ir, ela encontrou na portaria do prédio dela o vizinho traficante e fez a encomenda: um tubinho de clorofórmio com pedaços de bala halls de morango no fundo. Ela chegou antes, nervosa. Você chegou um pouco depois, e ela lembra de você entrando, tímido. Lembra de você e do amigo-em-comum saindo pra comprar bebidas. Lembra dela começando a cheirar o tubinho da bala de morango.

E depois ela tem flashes.

Flashes de vocês chegando com as bebidas.

Escuro.

Escuro

Escuro.

Um único flash de um pinto. Entrando e saindo.

E depois, escuro de novo.

E aí, não se desespere. As lembranças voltam, com ela de blusa e calcinha, correndo pelo corredor daquele apartamento, muito feliz. A calcinha tinha uma estampa com dois olhos. Olhos que viram muito mais do que ela. Porque ela não sabe como, não sabe de que forma, nem em qual posição. Não sabe se vocês usaram camisinha. Não sabe nem se vocês se beijaram. Mesmo que fosse só isso que ela queria.

Depois, o escuro foi iluminado com um e-mail na caixa de entrada, com várias fotos tiradas por você e pelo novo-amigo-em-comum naquela noite. Ela na sala, apagada no chão, com o peito pra fora. Foi há 13 anos atrás, mas ela ainda se lembra da roupa: blusa preta com top branco. Aquelas imagens a atormentaram até que ela conseguiu recuperar o cd com o amigo-em-comum e o quebrou. Mas o medo permaneceu latente. Será que você tinha as fotos guardadas em algum outro lugar? Talvez você ainda tenha numa pasta escondida naquele computador velho. Sim, 13 anos e ela ainda pensa nisso.

Mas não sempre. Agora, ela brinca com outros nomes, outros personagens e hoje conta histórias, que ironia, histórias de amor, ou da falta dele. Quando o amor acaba, sabe? Os terapeutas dizem que isso é um sintoma de quem já sofreu abuso. Ela não sabia que criar novas personalidades era uma forma de se proteger. Olha que bonito.

Estuprador querido,

Essa palavra agora sai menos torta da minha boca. Eu demorei 6 anos pra conseguir, de fato, me entregar pra um relacionamento com um homem. Eu namorei uma mulher antes disso porque não confiava no sexo oposto. Demorei muito pra conseguir gozar com um cara e me culpo desde então por aquela noite. Fui humilhada por ter feito sexo com dois amigos num espaço de poucos dias e tive certeza de que tudo aquilo era minha culpa, minha responsabilidade e de que eu merecia pagar o preço. Afinal, fui eu que levei a droga. Fui eu que cheirei a droga. Fui eu que apaguei, certo?

Errado. Abuso de vulnerável é estupro.

Bêbada, dormindo, inconsciente ou gritando. É estupro.

Eu precisei que 30 homens estuprassem uma menina de 16, que uma sociedade inteira duvidasse e julgasse a vítima, pra perceber que eu também já tinha sido estuprada.

Se eu pudesse voltar no tempo, se pudesse voltar naquela noite, eu te pediria pra que, quando você me visse apagada no chão, não tirasse fotos. Se eu pudesse rebobinar a vida, pediria que você me desse a mão e me tirasse, com cuidado, daquele chão, mas não que me levasse pro quarto e tirasse a minha roupa; apenas que me “colocasse” pra dormir.

Depois dessa noite, eu ainda alimentei uma paixão doentia por você. Era completamente fissurada em você e não entendia aquele processo. Até hoje eu ainda sonho com você. Freud deve explicar. Eu achava que era um encontro de almas, mas não tinha nada a ver com isso. Naquela noite você arrancou um pedaço da minha alma.

Descobri que o pior não é a dor da falta. O pior é a dor de não perceber que está faltando.

E que esse pedaço esteve esse tempo todo aí com você.

Querido,

Você fez isso e eu te perdoo. Você fez isso porque te ensinaram que esse é o lugar da mulher. Você não fez isso porque você é doente. Talvez você nunca nem mesmo aceite ter feito isso e continue com o mesmo pensamento: “Que mulher louca, eu só comi ela drogada há muito tempo atrás e agora ela vem dizer que é estupro”. Eu entendo se você cultivar esse pensamento. Eu mesma o cultivei até agora. Isso também te protege. Ninguém quer estar no lugar do abusador. Você é fruto da nossa cultura de estupro, machista, que alimenta a ideia de que mulher vulnerável deve ser comida, que você, como homem, deve tirar melhor proveito da situação. Que só assim você é macho de verdade.

Mas pra mim você teria sido muito mais macho se tivesse esperado o efeito da droga passar; se, juntos, tomássemos a decisão de fazer ou não o sexo. Você seria macho alfa, espada, cabra-macho, rei da floresta, ou qualquer outro termo, se essa experiência não fosse apenas um apagão traumático de dor na minha lembrança.

Infelizmente, naquela noite, você não foi homem. Então, se um dia você tiver a chance de fazer diferente, faça. Se um dia você tiver um filho, ensine-o a respeitar as mulheres e, principalmente, ensine que a gente nunca deve tomar pedaços do outro sem o seu consentimento consciente.

Isso é por todas nós.

Com respeito,

Eu e Ela.

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